quarta-feira, 12 de maio de 2010

Desinteresse Geral (produzido em 2009)

O costume em Cachoeiro é o de criticar a escassez da cultura local e, principalmente, da falta de público para prestigiar o que é produzido. Pois agora, com a visão um tantinho mais ampliada, percebo que o dilema é sofrido também em outras localidades – em diferentes proporções, entretanto.

Pois que dia desses, 15 a 18 de setembro, ocorreu o 5º Festival Nacional de Vídeos Universitários, o REC. Das sessões que ocorreram na Universidade Federal do Espírito Santo, notei que o interesse dos vitorianos (incluindo aí os que moram em outras cidades, mas trabalham ou estudam em Vitória) pela cultura em geral não é lá tão exemplar assim.

No início de cada dia da mostra, o que se pôde notar eram filas respeitáveis e grande expectativa do público – a ponto de pessoas sentarem no chão do Teatro Universitário para assistirem aos vídeos. No entanto, dados alguns minutos após o início das sessões, praticamente um terço dos espectadores desistia do evento e corria para fora do teatro, reclamando sobre as produções.

Até esse ponto está tudo bem, afinal ninguém é obrigado a gostar de videoarte e o escambau. Mas o que incomodou mesmo, além da falta de educação eventual (celulares e conversas), foi o desinteresse geral pelo evento. Pois, veja bem, numa universidade federal, localizada numa cidade bem povoada como Vitória, a expectativa é de que o público seja mais amplo e um tanto heterogêneo. Todavia, além da falta de público, a impressão que se tem é a que as pessoas que se importam com tais acontecimentos são as mesmas.

Isso me fez pensar que o que mantém teatros cheios no Rio ou em São Paulo é essa minoria repetitiva, que enche os olhos por ser uma minoria de cidade grande, difícil de comparar à de uma cidade interiorana.

A Era da Comida Congelada

Vinha todo serelepe e bastante desnorteado. Mesmo que sujo e faminto, tinha pelagem bonita e cara simpática. A alegria de estar vivo o fez desatentar para o carro que vinha em alta velocidade e que não fez questão de frear. O bicho era, agora, metade tripas, metade dor. Alguém chorou a agonia do animal. Alguém gritou que era só um cachorro - como se cachorro não fosse vida, e como se não fosse, também, frieza.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Siri de Asfalto II

Ih! Olha lá! Não é que tem um siri mesmo?

Se não é. De carapaça cultivada dura tanto tempo, bem do outro lado do asfalto, o bichinho assustado, andando cauteloso no meio-fio.

Corajoso. Vai ver foi a condição que o sirisogro impôs pra abençoar casóriosiri.

Talvez curioso demais. Só que a divagação pouco importa.

É de se abismar, no entanto, que o bichinho atravessou a areia toda sem ser pisoteado ou devolvido por criança boazinha e que não encontrou pneu na avenida.

Pode ser também que alguém deixou ali só de maldade, pra fazer a gente se perder pensando.

Siri de Asfalto I

Sirizinho foi pacato,
bem ágil, atravessando.
Aquele jeitinho torto, meio de lado
dava o charme ao tango.

Vai cheio de patas tontas, atropeladas,
trançando a si mesmo, se amontoando.
Dando voltas desengonçadas,
driblava pé, pneu e tombo.

Quase bêbado de tanta graça,
um tanto rápido ou freando,
cruza o asfalto e ainda ameaça
pedestre besta que não anda olhando.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sonhei que

Era aniversário dela, mas nem me lembrava – se não fosse alma boa, quase minha de tão perto atravessou prontinho a parabenizar muito bonito, sorriso largo.


E logo fui eu, que nem boba (e sou que dó) dar calor-amor de boa sorte e satisfação por tanta vida: sol, chuva, beijoca e muito passarinho – vê se não chego lá?

Mas, ah, aquelazinha outra lá veio tão cheia que transbordava ela mesma respingando nomes ruins de sentir tão perto. E aquele olhar que eu vi cruzar o dela e que a deixou com um abismo nos diamantes azuis. Pois aquela tristeza toda virou a minha (raiva).

Pois marquei os cinco dedos na cara gorda dela, e mais umas coisas não educadas bem fundo no ouvido – tudo com muita classe.

Carne Exposta

Impressão que me dá essa pressão aguda de que sou meio triste de nascença – e a outra metade é igual triste, só que aí o defeito nem é comigo não.

E antes fosse insuportável, que eu logo me enchia e saía pra tomar um sorvete. Ou que alguém com mais franqueza me daria umas bolachas (nem a de comer) e eu ficaria feliz pra sempre (ou sorriso falso, se for).

Mas nem. É, sabe, belisquinho de amigo implicante. Bem pequenininho, aos poucos, e que vai até onde a gente nem sabe apontar, se é que existe o alvo. E dá uma agonia na hora que a gente até explode e se espalha de raiva (às vezes na cara). Só que aí passa rápido. E depois fica um vermelhão bem odioso. E eles vão acumulando até que você vira um hematoma só, cheio de dores – que às vezes até abraço gostoso e beijo molhado machuca. Você vira, inteiro, um filtro de não sentir (amor, alegria, e sorrir dói). Só que tem muito dentro, e aí aumenta a dor, porque junta o desespero e a saudade.

Lá vinha o velho

Lá vinha o velho, meu deus, se arrastando até o ponto de ônibus.
A pele cansada.
As pernas tortas de tanto andar.
A visão um tanto confusa.
O cabelo ralo e branco.
O caminhar bagunçado - meio trocado, zigue-zague, cones invisíveis, mas muito certo.
O olhar cheio de vazio, mas concentrado, confiante.
O tempo passou rápido; depois lento demais.
As mãos tão pesadas dos anos, tremulam ao vento. Aliás, o corpo todo. E o vento até ajuda, dando uns empurrões muito bem vindos.
O corpo quer se mostrar ainda forte. Mas dá um dó.
E trabalha. Perguntando baixinho, como quem não quer incomodar, se vai aí, minha senhora, um picolé, um milho verde, ou se a mocinha não aceita um coco geladinho, que nesse calor ninguém se agüenta. E por que não, então, o doce?
Então tá, boa tarde.
Ninguém parece querer. Falta tanta vontade de fazer um agrado, de se agradar.
Mas muita pena, que quem tem, diz ele, muito sábio, é galinha. Tanta que nem voa; fica lá estabacada, amém amém pra vida.
Nem aí. Se não querem, ele quer.
Picolé, milho verde, água de coco e até a cocadinha.
Óh que vida boa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Apontador

Saiota de barrinha rendada verde-branca tartarugada.
Meio madeira dura, duas voltas.
Ponta fofinha, camurçada.
Exibe, a saiota, corpinho fino que nem amarrota,
de tanto jeitinho pra andar comportado-rebolandinho,
tão maior, a panaria, que a mocinha torta.

domingo, 20 de setembro de 2009

Sobre Cachoeiro

Cachoeiro é o calor. Engrenagem que só roda com suor. É gente que, se esfria, amolece, perde a vontade de ser. É banho de sol escaldante no ombro, na cara, no corpo todo. É sentir-se de olhos sempre bem abertos e pulmões cansados – a boca aberta e a garganta seca. É pedir, por favor, minha senhora, um copo d’água, que tá muito quente.

Cachoeiro são as ruas confusas, como raízes cheias de ramificações, que levam, todas, ao mesmo fim - numa procura enlouquecida por movimento, por vida.
É ir conhecendo as vielas aos poucos e marcá-las na memória com o sangue – em meu caso, do joelho. É crescer junto.

Cachoeiro é seguir caminho se guiando pelas lojinhas e pensar ter perdido o rumo quando uma delas fecha. É ir “pra rua” e encontrar quem não se vê há muito tempo. É dançar com os passantes quando se tem pressa. É reclamar dos motoristas ruins porque, pelo amor de deus, nem em São Paulo se dirige assim!

Cachoeiro é não saber nome de endereço e tomar a venda do seu João como referência. É ir com a cara de Fulano por ser vizinho da dona Maria. É esse jeito bagunçado de organizar tudo, mas que, ao final, todo mundo entende, a que a gente se acostuma.

Cachoeiro é reclamar muito é injuriado da mesmice e do marasmo em épocas de festa; e agradecer pela calmaria à primeira cobertura dos incidentes ocorridos em comemorações de outras cidades.

Cachoeiro é ver o Itapemirim carregar tudo consigo em épocas de cheia. É apreciar a força do rio tomando o que é dele de direito, desde nascido, filetinho, até se tornar esse mundaréu que vai adentrando as casas - sim, senhor - sem pedir licença a quem tomou suas terrinhas da margem. É observar as garças indo e vindo, repousando, balouçantes, em suas árvores-casa.

Cachoeiro é aquela preguiça de sair de casa porque, em qualquer lugar que se vá, é uma descidinha rápida na ida, e um morrão infindo na volta – afinal, experiência própria, é mesmo só na descida em que o santo ajuda.

Cachoeiro é uma brasinha de talento no coração de cada um, esperando sopro de coragem e vontade de mundo, de se agarrar com amor obsessivo à expressão artística. É ter dom pra caprichar até no almoço de hoje.

Cachoeiro é essa coisa de terra natal da boa, que fica marcada no coração, costurada e amarrada durante anos – um pontinho por vez - e que, quando nos damos conta, já não sai mais. É remendo que, se a gente arranca, deixa aquela cicatriz dolorida de ter tirado.
Cachoeiro é estrela lá no céu, gargalhando miudinho, a qual só escuta quem se permite ouvir; a qual só vê quem abre bem os olhos e procura; a qual só sente quem tem coração assim também, miudinhozinho, de ficar cheio, transbordando, preenchido de um amor só.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Conto de Almoço

O guri chegou com casa pisando todo tonto, com um requebrado de fome. O resto do corpo que não era pensando em comida se ocupou de levar o molequinho até o quarto. Atirou-se à cama e aquele conforto todo entrou em contradição com as quatro horas e meia em que esteve sentado numa cadeira desconfortável de escola - e ainda curvando e esticando para conseguir enxergar além da cabeça do Laurão.

Antes de se acostumar ao aconchego convidativo do quartinho azul, o menino tratou foi de se levantar, num empurrão que só, e ai do chão se reclamasse da nova decoração de tênis barrento, meia melequenta e camisa com cheiro de homenzinho. Da cama ele cuidaria depois.

Passou no banheiro para encarar um arranhão de futebol, na testa, e pensou em que não é porque o Rogerinho é menor que ele pode sair empurrando as pessoas. Mais abaixo, notou a falta de barba – muito ainda até o pai – mas não se incomodou com o rosto liso, afinal não era hora de ficar procurando defeitos em si mesmo. Adeus, espelho, e lá se foi um par de gravetos carregando o peso da fome até a cozinha, onde o sorriso de Vó Arlinda aguardava o abraço de neto.

Bênção, vó. Beijo. Vá almoçar, meu filho, que hoje eu comi mais cedo. E o moleque sentou em frente àquele monumento de arroz, batata, ovos mexidos e salsicha, um colorido irresistível de verão que deu a ele mais calor ainda, um vaporzinho bom. E comeu com a fome de quem passou a vida inteira esperando pela chance, enchendo bem a garfada para levar até a boca - que chegava mais cedo que o educadamente calculado. E saboreou cada abocanhada espantado e curioso com as possibilidades de misturar os diferentes paladares, um com mais salsicha, e outro com dois grãozinhos adicionais de arroz. Engoliu com tanta avidez que o segundo prato chegou à mesa antes mesmo da última garfada ter chegado ao estômago. E suava de muito prazer, desejando que aquele gostinho inusitado dos ovos com a batata não acabasse - mas que logo ia embora goela adentro, para dar lugar a uma combinação nova.

Terminada a última bocada, o menino deu duas batidinhas no prato com os talheres – era o aviso de que estava muito satisfeito, obrigada. Um agradecimento extra saiu, sem querer, pela boca e avó e neto coraram de rir. Gurizinho, agora reabastecido, deixou as louças na pia e apertou as carnes da avó – e peles também. Vó, promete ficar assim pra sempre? Mas me respeite, viu, menino, que um dia você vai ficar assim também! Risadas. Vó, tem sobremesa?