Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Mulheres Bicentenárias


Dia desses estava assistindo à TV e dei de cara com a senhorita Ana Maria Braga apresentando o costumeiro “Mais Você” ao lado do Louro José. Levei um susto. Encolhi-me no sofá no primeiro momento. Depois, tive de me aproximar da tela para confirmar se era a própria a se apresentar no programa. Tinha certeza de estar contemplando o mais novo modelo andróide desenvolvido por alguma dessas empresas especializadíssimas em robótica internacionais. Provavelmente haveria uma filial instalada secretamente no Brasil e os técnicos estavam fazendo o teste inicial logo na Rede Globo: "Se conseguirmos enganar a todos os telespectadores, então os robôs serão um sucesso de vendas!". Apesar de estar bem na minha frente, na TV, eu não me convencia. O rosto da apresentadora quase não se movia. Sorriso mecanizado, dentes pálidos, a pele camuflada em camadas e camadas de pó. Era impossível que aquilo fosse um ser humano.

Certamente, não defendo a idéia de que as mulheres devam se descuidar da aparência só porque que uma idade mais avançada está se aproximando e que, já que ainda não foi desvendado o elixir da eterna juventude - o que nem é lá tanta vantagem assim -, não se deva usar ao menos um batonzinho antes de mostrarem a cara ao mundo. Entretanto, convenhamos que, ultimamente, há um certo exagero de cuidados estéticos, uma ânsia de se esticar a beleza da forma juvenil por tanto mais tempo que as mulheres se deixam mutilar de todas as formas e acabam por perder a própria identidade. O culto à filosofia do belo está deformando não só as expressões faciais, mas também a beleza em si.

Nos Estados Unidos, por exemplo, foi inaugurado, não sei quando, o Museu de Cera, “Palace of Wax”, onde ficam expostos os exemplares feitos de cera de várias celebridades hollywoodianas - e é facílimo confundir os bonecos com seus modelos verdadeiros. Tal bagunça me faz indagar com freqüência sobre esse processo ilusório: são os técnicos que estão cada vez mais eficientes ou são os próprios artistas que estão se congelando em cera para se imortalizarem em exemplares fiéis de sua imagem, como num perpétuo retrato? Pois a única certeza que tenho em relação a essas réplicas é a certeza de que os corações são feitos de Botox e os cérebros de silicone. O resto, como de se esperar, é enchimento. De qualquer forma, não é preciso ir tão longe para observar a alienação estética que tem parasitado a sociedade.

No Brasil, é de cansar a vista a quantidade de mulheres, já pelas casas da menopausa, exibindo as recentes plásticas e a falsa peitaria como se mal tivessem atingido a puberdade. O agravante é que, como se não bastasse fazerem de si próprias belas bonecas de porcelana, as ditas mães ainda carregam as filhas para o mesmo bisturi: ao invés de ganharem intercâmbios culturais ou bons livros, as meninas, no auge de seus 15 anos, ganham luxuosíssimas lipoaspirações e maquiagens definitivas. Está renovada, assim, a demanda de fêmeas acéfalas de que a sociedade tanto necessita para enfeitar seus seletíssimos eventos – como essas bienais que acontecem por aí.

E falando em bienais, nesta edição da Bienal Rubem Braga, por ilustração, havia mulheres e mulheres que gastaram todo o dinheiro do mês em jóias e vestidos caros - e não compraram um livro sequer. Sorrisos, aplausos, chicletes insistentes. Feita a pose, beijinhos de até logo e retornavam todas as bonecas a suas casas com grande expectativa de vangloriarem a cara plástica estampada no primeiro folhetim social.

Não me lembro de ter visto alguma das peruas interessadas na recém lançada biografia de Rubem ou em livro qualquer. Outras nem fingiam prestar atenção nos discursos entediantes e ficavam a tagarelar como se soltas num galinheiro. Quem dirá visitaram o pavilhão nos dias seguintes ao evento...

Mas, dadas tantas voltas por esse mundinho de mediocridades estéticas, ainda não consegui descobrir o verdadeiro porquê de tanta insatisfação pessoal e de enlouquecida procura pela perfeição.

Senhoras ostentando decotes abissais. Milhares de reais gastos em efêmera beleza. Mal sabem elas que um pezinho de galinha pode enlouquecer um homem sensato.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Uma Tarde no Museu


23 de maio de 2009,

Combinamos, entre alguns colegas de turma, ir ao MAES, Museu de Arte do Espírito Santo, para visitar a exposição de Andy Warhol, artista que muito bem representa a pop art – e a influência da mesma na cultura de consumo. Warhol, assim como outros artistas do pop, transformava objetos e imagens do cotidiano em arte, por meio de técnicas simples como fotografia e serigrafia, entre outros.

Visitar a exposição de Andy Warhol é, por si só, uma grande experiência. O pop é inusitado, irreverente, repleto de cores convidativas. Inevitável não querer em sua própria casa uma parede inteira coberta por vaquinhas serigrafadas ou uma sala particular em que se possa abandonar o pudor e se divertir com Nuvens de Prata. Melhor ainda, ter uma fabriqueta particular de serigrafias para inovar misturas e sobrepor moldes. Muito convidativo – sim.

No entanto, o que me cativou na exposição – e um real aprisionamento – foi o olhar de Warhol. Em dado momento da visita, deparei-me com dois de seus vários Self Portraits. Um deles me ignorava completamente – não sei se timidez ou arrogância. O outro, em protesto, encarou-me misterioso - sem piscar, mantendo um aspecto sobrenatural. Senti-me encurralada, perdida em um labirinto de olhares: eu versus o artista/obra.

Eu o fitava e ele me fitava de volta. Ao mesmo tempo observávamos um ao outro, no reflexo da pupila, nos encarando, esperando o primeiro desvio para que se fugisse do encantamento. Quem seria o primeiro covarde?

Irritei-me: “Deixe-me! Você, que é artista travestido em obra, comprador pervertido em objeto de consumo, deixe-me! Não se apropriará de minha imagem, não me espremerá papel fino, não tornará meu sangue, tinta. Não se pode fazer qualquer coisa - não comigo!”. Aquela situação me fez felino arrepiado em fúria estática, preso em horror interno – as tripas congelando.

Foi quando me lembrei do filme da noite anterior: “O Silêncio dos Inocentes”. E foi justamente Lecter, em meu melhor momento Clarice, que me salvou do psicopata mal encarado: “We only covet what we see”. Sim, só cobiçamos o que vemos.

Morpheus largou-me e acordei num estalo de realidade, ainda com resquícios de medo na pele. Encarar novamente o quadro foi o tempo de recuperação. Dei uma língua, dois ombros e um conjunto de olharezinhos irritantemente arrogantes. Despedi-me de Andy vossa majestade Warhol e dirigi-me à série Camouflage - que a turma declinou como estampa para a camisa de Comunicação -, obra muito mais colorida e convidativa do que o petulante autor.

Enfim nos cansamos da visita e nos preparamos para sair do museu, ao que uma das ovelhas desgarradas parou em frente ao Auto Retrato hipnótico e entrei em desespero, preparada para o salto heróico, quando fui impedida pela felpuda fala: “Olha, dá pra ver o reflexo!”.

Domingo, 24 de Maio de 2009

"Só uma, pra eu guardar."


Carregava na carteira apenas as fotos dos vivos, para se lembrar do que ainda poderia fazer por eles.
Dos mortos: saudades, apenas.

Reencontro


A reunião ia muito bem. Discutia-se algo importante na sala acrílica.

Quando ela avistou, do jeito característico da orelha - de cansaço de jornada - e saiu, em hipnose não acreditada de choque e de surpresa amorosa - como chantily.

Caminhou até ele, afagou-lhe os pêlos e deu-lhe um beijo no pescoço longo de não deixo acontecer de novo.

Despediu-se dos colegas: achei meu cavalo perdido.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Nada

Meu pensamento é tudo o que sou.
É o que sobra e o que se perde.
Não pode ser gravado com a minha cara dura.
Não pode ser arquivado estatisticamente junto de meus atos-ações-social-importantes.
Há mais do que cabelo e pó e água.
Há, como em nenhum outro, aleatório, vazio.
De tanta sinestesia argumentativa, sobra nada.
E nada se classifica.
Nada é obsoleto.
Nada transborda.
Pensa-se nada.
Nada sobra.

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Liberdade Atmosférica

Estava a observar o mundo pela varanda - porque gosto dessa coisa de enquadramento de janela de ônibus, varanda, óculos, pra ver as coisas - e meu procurar encontrou um pássaro. Era uma ave de rapina. Não sei identificar se uma águia menor ou um gavião, pois essa coisa de taxonomia nunca foi lá um dom meu. Não importa.

O bicho estava lá, todo piando - respeitavelmente - a dar mergulhos aerodinâmicos com uma maestria admirável, devo dizer. Divertia-se naquela brisa geladinha de quase inverno. Arriscava mergulhos e giros, sempre deixando-se conduzir pelas correntes muito gentis, obrigada, de vento litorâneo. Os prédios já não faziam diferença. Do contrário, serviam de obstáculos, labirintos, para deleite do gaviãozinho.

O momento foi pequeno. Pena eu não ter uma câmera decente àquela hora. Mostraria a todos o meu achado.

Mas fiquei foi com uma inveja gostosa de não ter a mesma envergadura e uma quantidade considerável de penas a mais - e peso a menos - só para ter o prazer de desfrutar daquele vôo descompromissado.

Sábado, 25 de Abril de 2009

Brancas, as duas, como deve ser

Lá estavam, no meio da estrada, num monte meio pra fora, meio escondido, duas cruzes - uma maior, outra menor. Fiquei a me perguntar o que havia de enterrado debaixo delas.
Poderia ser uma família feita de um adulto e uma criança; vai ver era mãe e filho recém-nascido-morto dum parto que não era pra acontecer. Vai ver era até menino e passarinho, que o menino, sem malícia, tadinho dele, prendeu achando proteger do mundo, mas matou, deixando a marcê dum solitário cantar.
Morreram de tristeza, um pelo outro.

BR 101

É tudo filosofia depois da janela.
Juntam-se os tempos: lento acima; rápido abaixo.
Dando noção da ligeireza da vida
que às vezes nos atira o pensamento para distante, longe dos pequenos
pedacinhos, os momentozinhos, todos eles,
feitos dessas impressões que caem sei lá de onde
e que é tão bom ter.

A gente se sente gênio por ver
tão profundo
o que ficou sempre ali, a discreta amostra,
porque quase ninguém percebe.

E então você recebe um agradecimento,
que pode vir em chuva, em friozinho,
mas eu gosto mesmo quando vem em céu sorridente, estrelado,
as estrelas gargalhando.

Cachorro de Ap

O cachorro de apartamento foi passear, coitado...
Coitado o quê!
Saiu do último andar berrando para quem quisesse ouvir:
"Vou passear, vou pra rua!"
Tal que os outros começaram a latir de inveja:
"Vá se danar! É a tua!"

Terça-feira, 3 de Março de 2009

Isabel Foi Passear

E não é que lá estava passando a mocinha,
muito bem arrumada – obrigada -,
com um vestido de flor e renda meio curto, meio comprido.
O cabelo preso bem no alto,
um charme altivo demorado de fazer,
mostrava, cor de jambo,
o pescoço alongado, perfumado - uma vontade de querer...
Do vestido e do penteado
- ajuntados a mel e pimenta –
saía Isabel, escultura fina,
a caminhar balouçante pelas calçadas enoveladas,
rigidez de mulher brava
e meiguice arregalada de menina atenta.